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A prisão dos irmãos Tate e o debate sobre a Lei de Alienação Parental: quando a misoginia digital encontra os tribunais

A repercussão internacional do caso dos influenciadores reabre a discussão sobre os impactos da machosfera nos tribunais brasileiros e o pedido de revisão da Lei de Alienação Parental.


A prisão dos irmãos Tate e o debate sobre a Lei de Alienação Parental: quando a misoginia digital encontra os tribunais

A prisão dos influenciadores Andrew e Tristan Tate, em Miami, a pedido das autoridades britânicas, reacendeu um debate que vai muito além das acusações criminais que enfrentam. Conhecidos mundialmente por difundir discursos de dominação masculina e por liderarem uma das maiores redes de influência da chamada "machosfera", os irmãos se tornaram símbolo de uma ideologia que associa poder, riqueza e controle sobre mulheres como atributos da masculinidade.

​Hoje, esse discurso está sob escrutínio internacional.

​Além das acusações de tráfico de pessoas, estupro e exploração sexual investigadas na Romênia, Andrew Tate passou a responder, no Reino Unido, por acusações relacionadas à posse e facilitação de imagens indecentes de crianças e pornografia extrema. Segundo as autoridades romenas, entre as vítimas identificadas no processo também há uma adolescente de 15 anos. Os irmãos negam todas as acusações, e os processos seguem em andamento.

​A repercussão do caso levantou uma questão inevitável: até que ponto discursos que naturalizam a violência contra mulheres influenciam comportamentos, decisões políticas e até mesmo sistemas jurídicos?

​No Brasil, essa pergunta leva diretamente à Lei de Alienação Parental.

​A exportação da machosfera

​Andrew Tate nunca precisou morar no Brasil para influenciar milhares de jovens brasileiros.

​Sua linguagem, seus cursos, seus vídeos curtos e sua visão sobre relações entre homens e mulheres foram amplamente reproduzidos por influenciadores nacionais.

​A estética é conhecida:

​Homens cercados por carros de luxo;

​Charutos;

​Discursos sobre "homem de alto valor";

​Defesa da submissão feminina;

​Afirmações de que mulheres mentem;

​Incentivo à ideia de que homens estariam sendo perseguidos pelo sistema de Justiça.

​Grande parte desse repertório foi incorporada pela machosfera brasileira.

​Mas existe uma diferença importante.

​Enquanto Tate atacava genericamente o sistema judicial, grupos brasileiros encontraram uma ferramenta jurídica concreta para sustentar essa narrativa: a Lei de Alienação Parental.

​Quando a ideologia encontra uma lei

​Promulgada em 2010, a Lei nº 12.318 surgiu com o objetivo declarado de combater interferências indevidas na convivência entre crianças e um dos pais após separações.

​Na prática, porém, sua aplicação passou a gerar intenso debate.

​Diversos pesquisadores, organizações de direitos humanos e entidades técnicas sustentam que, em inúmeros casos, a lei foi utilizada para inverter o foco das investigações.

​Em vez de priorizar a apuração de denúncias de violência doméstica ou abuso sexual infantil, mães denunciantes passaram a ser acusadas de manipular emocionalmente seus filhos.

​A lógica é conhecida.

​Uma denúncia de abuso transforma-se em uma discussão sobre alienação parental.

​Quem denuncia passa a ser investigado.

​Quem é investigado reivindica proteção judicial.

​Essa dinâmica é hoje um dos principais argumentos apresentados por entidades que defendem a revogação da lei.

​O alerta dos organismos nacionais e internacionais

​Nos últimos anos, o questionamento à Lei de Alienação Parental deixou de ser restrito à academia.

​Organismos nacionais e internacionais passaram a recomendar sua revisão ou revogação.

​Entre eles estão:

​Organização das Nações Unidas (ONU);

​Defensoria Pública da União (DPU);

​Ministério Público Federal (MPF);

​Conselho Federal de Psicologia (CFP);

​Conselho Federal de Serviço Social (CFESS);

​Conselho Nacional de Saúde (CNS);

​Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH);

​ABRASCO.

​Essas instituições convergem em um ponto central: a proteção da criança deve prevalecer sobre teorias sem validação científica quando houver suspeita de violência ou abuso.

​Também apontam que o conceito original da Síndrome de Alienação Parental jamais foi reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) nem pela Associação Americana de Psiquiatria (APA).

​Richard Gardner: a origem da controvérsia

​O conceito que inspirou a Lei de Alienação Parental nasceu na década de 1980 com o psiquiatra norte-americano Richard Gardner.

​Gardner defendia que, durante disputas de guarda, mães poderiam "programar" filhos para rejeitar os pais.

​Suas publicações, entretanto, foram alvo de severas críticas.

​Além da ausência de validação científica, Gardner escreveu textos minimizando determinadas formas de abuso sexual infantil e defendendo posições hoje amplamente repudiadas pela comunidade científica.

​Sua chamada Síndrome de Alienação Parental nunca foi reconhecida pelos principais manuais internacionais de diagnóstico.

​Mesmo assim, suas ideias influenciaram legislações e decisões judiciais em diferentes países, especialmente no Brasil.

​Os números da violência

​Enquanto o debate jurídico avança, os indicadores de violência continuam crescendo.

​O Brasil registrou novo recorde de feminicídios.

​Os dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública também apontam crescimento dos estupros de vulnerável, com milhares de crianças e adolescentes vitimizados todos os anos.

​A violência doméstica permanece concentrada dentro das próprias famílias.

​A maioria das agressões contra crianças ocorre no ambiente doméstico.

​Na esfera internacional, Reino Unido e Estados Unidos também classificam a violência contra mulheres como problema estrutural.

​Autoridades britânicas chegaram a definir a violência contra mulheres e meninas como uma ameaça nacional comparável ao terrorismo.

​Quando a realidade chega aos tribunais

​O debate ganhou novo impulso após reportagem exibida pelo Domingo Espetacular.

​A reportagem contou a história de uma mãe que procurou ajuda após perceber mudanças bruscas no comportamento da filha pequena.

​Segundo o relato apresentado, a criança passou a apresentar pesadelos recorrentes, falas relacionadas a agressões e comportamento sexualizado incompatível com sua idade.

​Ao denunciar o caso, a mãe acabou processada por alienação parental.

​Chegou a correr o risco de perder a guarda da filha.

​Meses depois, uma investigação da Polícia Federal identificou movimentações compatíveis com exploração sexual infantil e compartilhamento internacional de material envolvendo a criança.

​O pai foi preso durante a operação.

​A defesa nega todas as acusações, e o processo segue em tramitação.

​O caso tornou-se exemplo do risco apontado por especialistas: denúncias podem ser desacreditadas antes que as investigações sejam concluídas.

​A Polícia Federal diante de um novo cenário

​Os números da Polícia Federal mostram que o enfrentamento da exploração sexual infantil se tornou prioridade.

​Somente no último ano foram realizadas mais de mil operações contra crimes cibernéticos envolvendo abuso sexual de crianças e adolescentes.

​O crescimento desses crimes acompanha a expansão das redes digitais e da circulação internacional de material de abuso sexual infantil.

​Especialistas alertam que a internet reduziu barreiras para produção, compartilhamento e comercialização desse tipo de conteúdo.

​Violência simbólica produz violência real

​Pesquisadores da violência baseada em gênero afirmam que discursos públicos ajudam a moldar normas sociais.

​Quando influenciadores defendem que mulheres são propriedades, que denúncias femininas são presumidamente falsas ou que homens devem exercer controle absoluto sobre parceiras e filhos, essas mensagens podem reforçar estereótipos que dificultam denúncias e legitimam comportamentos abusivos.

​Isso não significa que um discurso, isoladamente, cause um crime específico.

​Mas significa reconhecer que ambientes sociais marcados pela desumanização de mulheres e pela normalização da violência favorecem a aceitação de práticas abusivas.

​É justamente esse o alerta feito por organismos internacionais que acompanham violência de gênero.

​Um debate que ultrapassa a política

​A discussão sobre a revogação da Lei de Alienação Parental já não se restringe às disputas familiares.

​Ela envolve direitos humanos, proteção integral da infância, produção científica e enfrentamento à violência contra mulheres e crianças.

​De um lado, estão aqueles que defendem mecanismos para proteger o direito de convivência familiar.

​De outro, instituições técnicas sustentam que a legislação, da forma como vem sendo aplicada em determinados casos, pode criar obstáculos à identificação de situações reais de violência.

​Independentemente da posição adotada, um ponto tornou-se incontestável: nenhuma política pública voltada à infância pode ignorar as evidências científicas acumuladas nos últimos anos.

​A prisão dos irmãos Tate tornou visível uma discussão que já estava em curso.

​Ela expôs como discursos de dominação masculina podem ultrapassar as redes sociais, influenciar comunidades digitais, moldar narrativas jurídicas e, em determinados contextos, afetar diretamente a proteção de mulheres e crianças.

​É nesse cenário que cresce, no Brasil, a pressão pela revogação da Lei de Alienação Parental e pela adoção de instrumentos jurídicos alinhados ao princípio da proteção integral previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente e aos compromissos internacionais assumidos pelo país.

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