Animais de ONG não podem ser doadores de sangue
Deputado Rafael Saraiva da causa animal contestou na Corregedoria a ação de resgate de 153 felinos na Vila Medeiros, enquanto sua genitora Dra Patrícia Saraiva assumiu a representação legal da ré Patrícia Masiero.
TJSP/CRMV/PoliciaSP
Redação 











Seja qual for o sistema de coleta de sangue, é crucial que cada etapa do procedimento seja realizada sob as mais rigorosas condições de higiene.


Redação INVESTIGAÇÃO EM SP
Operação na ONG Perfeitos e Especiais joga luz sobre o mercado de sangue pet e relações na causa animal
O avanço das investigações criminais conduzidas no âmbito do Processo nº 153XXXX-77.2026.8.26.0454, sob cuidados no Juiz das Garantias da Capital (TJSP), revelou que a Associação Projeto Perfeitos e Especiais operava um complexo esquema de exploração biológica e financeira. A fundadora da entidade, Patrícia Louana Masiero, que segue custodiada pelo Estado em prisão preventiva neste ano de 2026 após operação policial deflagrada no fim de junho, é alvo de uma ação civil e criminal respaldada por depoimentos formais de ex-colaboradores que integraram o corpo técnico da instituição por cinco anos. Os relatos, já protocolados junto à Polícia Civil e ao Ministério Público, expõem um severo contraste entre o marketing assistencial promovido por parlamentares e a realidade sanitária do local.
Os problemas estruturais, de conduta e de custódia da responsável, contudo, não eram recentes. Registros oficiais da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo apontam que, em 21 de novembro de 2022, já havia sido lavrado o Boletim de Ocorrência nº JO7260-1/2022 (73º D.P. Jaçanã) pelo crime consumado de Apropriação Indébita (Artigo 168 do Código Penal). Na ocasião, a responsável pela ONG reteve indevidamente um gato portador de necessidades especiais ("Boldo") levado por uma cidadã a um evento de adoção no Shopping Eldorado. Além disso, a entidade acumulava passivos trabalhistas recorrentes no TRT-2 (como os processos de numeração inicial
1000202-XX.2026.5.02.0082), onde ex-funcionários denunciavam jornadas exaustivas e assédio.
Financiamento público e conexões eleitorais comprovadas
Arquivos digitais de redes sociais revelam que a Associação Projeto Perfeitos e Especiais contava com trânsito direto e financiamento público viabilizado por lideranças políticas da causa animal. Registros oficiais de 13 de novembro de 2025 documentam a inclusão da ONG entre as entidades contempladas pelo "Edital Animal SP", programa de fomento do Governo do Estado de São Paulo. Em publicação oficial, Patrícia Masiero celebrou a conquista de verbas e agradeceu textualmente ao deputado estadual Rafael Saraiva pela destinação de recursos e suporte técnico às necessidades da instituição, citando também o apoio de colaboradores e eleitores identificados nos autos, como D., L., V., R., M. e S.

A proximidade político-eleitoral estendeu-se ao longo de todo o período que antecedeu as investigações. Em postagens de 1 de fevereiro, a investigada aparece em registros fotográficos de manifestações públicas posando ao lado do deputado Rafael Saraiva, utilizando camisetas oficiais de militância do parlamentar ("Eu luto pelos animais - Dep. Rafael Saraiva").

Paralelamente, no âmbito federal, o gabinete do deputado Delegado Bruno Lima e plataformas associadas (como
@dr.murillolima) atuavam no fluxo contínuo de abastecimento do plantel da ONG, registrando em vídeos de visitas formais a entrega de felinos resgatados, incluindo casos de repercussão digital como o da gata denominada Mari, diretamente à coordenação de Patrícia Masiero. Em uma das gravações, o próprio Murilo Lima, em parceria com a estrutura do Delegado Bruno Lima, comemora o resgate e a entrega de animais ao abrigo, afirmando verbalmente:“Murilo Lima: Princesa! Qual que é o nome, Paty? Qual nome? Qual que é o nome da nossa resgatada?Patrícia Masiero: Pronto, Mari. Vai ser Mari.Murilo Lima: Mari? Vai ser Mari. É isso aí, ó. A Mari resgatada. Estamos aqui na Perfeitos Especiais com a nossa parceira Paty. Meu, ela é linda. Gente, ela é linda, tá prenha, pescoço em carne viva. Vivia dentro de uma gaiola há anos. E a mulher dizia que era brava. Cadê? Nem com os outros gados não tá brava. (...) Bacana que a gente tá fazendo aqui hoje. Começando a fazer, né? Como a gente sabe que a gente tem a FELV, FIV, que são problemas insidiosos. A gente teve, né, problema de um, dos casos aqui. Então, hoje na ONG, com trabalho de toda a responsabilidade, né, doutor Bruno?Gabinete/Assessoria: Com certeza. Estamos agora fazendo um trabalho, né?”



Segundo as linhas de investigação sustentadas por testemunhas, esse fluxo constante de animais resgatados por agentes públicos servia para alimentar o sistema de captação comercial de hemocomponentes. A ONG atuava em parceria direta com o laboratório CEVET Anália Franco, submetendo felinos sem histórico sanitário a coletas industriais em bancadas improvisadas utilizando soluções anticoagulantes de CPD Adenina. As bolsas de sangue eram comercializadas na rede privada por valores superiores a R$ 900.

A proximidade entre a gerência do abrigo e o gabinete parlamentar federal ficou materializada em capturas de telas de conversas privadas no WhatsApp. Diante de pressões locais na Vila Medeiros, a investigada recorria diretamente ao contato do deputado Bruno Lima para pedir intervenção e relatar crises. Em mensagens de texto enviadas em tom de desespero, a responsável alertava sobre fiscalizações decorrentes de queixas de vizinhos por "excesso de lixo e animais", obtendo do próprio parlamentar o suporte imediato de sua estrutura com a afirmação textual: "Vou pedir para o pessoal te chamar".

O papel do laboratório e os flagrantes de captação de hemoderivados
Novos elementos integrados à investigação detalham o envolvimento direto da estrutura do CEVET Anália Franco nos procedimentos de extração e estoque biológico. Arquivos digitais públicos em formato de vídeo documentam o médico-veterinário Dr. Bruno e demais médicos veterinários, atuando diretamente nas dependências do abrigo, realizando o manejo de animais e efetuando a sangria para o envase de bolsas de hemoderivados.

As imagens expõem que os procedimentos ocorriam em felinos visivelmente debilitados, magros e prostrados, em total desacordo com os critérios de higienização, isolamento e assepsia exigidos pelos órgãos reguladores. A presença ativa desses profissionais e de insumos laboratoriais específicos no local contradiz as diretrizes de controle sanitário estabelecidas na medicina veterinária transfusional, configurando um severo risco de infecção cruzada para animais saudáveis e espalhando material com vírus ativos de FIV e FELV na rede de hospitais particulares.

Depoimentos técnicos na íntegra: o fluxo de sangue e a rotina de abusos
As declarações formais prestadas pelas testemunhas que integraram o corpo técnico da instituição por cinco anos detalham o funcionamento dos bastidores, relatou sob juramento as fraudes clínicas e práticas de captação biológica indiscriminada:
"Eu comprovei tudo na justiça, está tudo comprovado lá, então eu não estou falando nada da boca para fora. Eu via realmente o que ela fazia com os animais, ela colocava sim animais que ainda não tinham morrido no freezer sim, tá tudo comprovado na justiça, ela pegava, ela já tem dois vídeos que ela pegava uma gatinha e ela queria jogar essa gatinha no rio por causa que a mulher que levou lá não pagou, então ela queria jogar essa gata no rio. Ela cobrava de todo... Quando você ia deixar um animal lá, ela cobrava. Ela cobrava exame de FIV e FELV que não era feito. Ela cobrava bioquímico que não era feito. Ela vendia bolsas de sangue ilegais pra um lugar aí que eu não vou citar nome. Então assim, eu fiquei lá cinco anos, então eu sei tudo o que aconteceu lá. Aí as pessoas falam assim: 'Nossa, você via todas essas coisas que aconteciam lá e não saíam?' Eu não sai realmente por causa que eu gostava dos animais de verdade. E fora que ela era chantagem emocional quando a gente falava que ia sair. Ela sempre arrumava alguma coisa pra gente não sair. Trabalhou eu e uma auxiliar, a gente fazia tudo o que a gente podia lá. Tudo que a gente conseguia, a gente fazia. Os animais chegavam, a gente falava assim: 'Ô Patrícia, vamos deixar em quarentena, né?' Pra gente fazer todos os exames, ela não deixava em quarentena, ela pegava os animais e já soltava na casa com os outros. Por isso que apareceu um monte de animal que tem fívio, que tem felve. Então, tipo assim, são várias coisas que aconteceram, que a polícia pegou e porque as pessoas estão defendendo tanto uma pessoa que fez tanto mal pelos animais. Aí fica a minha pergunta: e será que as pessoas que defendem ela também não fazem isso com os animais? Então, tipo assim, eu denunciei porque eu cansei de ver pessoas que maltratam os animais. Enquanto eu estava lá, eu sempre fiz tudo o que eu pude por eles. Eu e uma pessoa que eu não vou citar o nome, então a gente sim fazia tudo, fazia soro subcutâneo, fazia tudo que a gente sabia fazer para tentar salvar. Mas nem sempre o nosso serviço era, como eu posso falar, era valorizado em questão das coisas que a gente fazia lá. ... gente, em questão de entrar dinheiro, eu não sabia quanto entrava, porque ela nunca falou isso pra gente. Eu sei que entrava muito dinheiro, porque todo dia ela pedia iFood, todo dia ela ia pra bar, todo dia ela ia beber. Então eu sei que entrava bastante dinheiro, porque uma pessoa sem dinheiro não consegue fazer isso todo dia, né, pedir iFood de manhã, de tarde e de noite. Então, assim, eu usufruir dinheiro igual falaram, isso daí é tudo mentira porque eu nem sabia quanto entrava e essas coisas. E tem até uma mulher aqui que ela falou assim, né, que ela foi levar um gatinho lá e a Patrícia tava cobrando dela horrores e ela não tinha dinheiro e eu fui e aceitei o animal. E tem outra pessoa também que levou um animal lá e não tinha dinheiro e ela fez um trabalho voluntário, mas mal ela sabe que o gato que ela deixou lá morreu agonizando porque a gente falava para a Patrícia levar para o veterinário e ela não levava. Então são várias questões aí que eu estou abrindo minha mente também porque são várias coisas que passaram lá e eu vou falando aos poucos aqui para vocês."

Complementando as denúncias de forma minuciosa, o auxiliar técnico detalhou a destinação dos recursos financeiros, as falsificações laboratoriais e a omissão de socorro que resultavam em óbitos diários:
"Boa noite, gente. Eu vim aqui falar um pouco do caso que tá acontecendo aí sobre a Patrícia da Perfeitos Especiais. Eu queria falar algumas coisas aqui que acontecia lá. Eu trabalhei lá 5 anos e assim, eu entrei lá assim que eu tinha terminado meu curso de auxiliar veterinário. E quando eu cheguei lá, os animais já eram bem, bem assim, bem descuidados já. Era, tinha, sempre tinha morte todo dia. Os animais eram tipo, os animais para ela não servia de nada, né? O que servia era o dinheiro que as pessoas mandava. E assim, a gente que era auxiliar, a gente precisava que um veterinário tivesse lá, ou pessoas para ajudar a gente. Ela falava que nunca tinha dinheiro, que nunca podia contratar um veterinário. Mas ela sempre vivia dentro do bar, sempre vivia gastando com iFood, com cabelo, com unha, todo dia. E ela nunca contratou um veterinário para ajudar a gente. Então a gente fazia o que a gente podia, que era eu e mais um auxiliar. E lá morria animais todo dia porque a gente não tinha o que fazer, porque a gente pedia para ela levar no veterinário. Mas ela sempre falava que não tinha dinheiro, ela pegava e gastava com outras coisas sem ser com os animais. E com a gente funcionários, ela também era assim bem, é, ela sempre foi bem racista comigo, ela sempre foi homofóbica pela minha opção sexual, ela sempre, ela não pagava a gente. Então tipo assim, a gente ficava mais ali olhando para tentar salvar eles, mas nem sempre a gente conseguia salvar todos. Até quando a gente, quando ela morava na primeira casa, a gente lá não tinha freezer, não tinha essas coisas. A gente foi ver, a gente foi ver freezer depois na outra casa. Todos os animais que morria, ela pedia para colocar no freezer. Às vezes animais que não, nem tinha morrido ainda, ela mesmo colocava no freezer quando a gente acabava o nosso horário de serviço. Então assim, ela nunca fez nada pelos animais, tudo dela sempre foi para ela. Ela fez uma bariátrica e ela foi, quando ela foi fazer um vídeo lá com a Lola, ela falou assim que ela tinha emagrecido porque ela deixava de comer, que ela tinha tido um câncer no estômago para dar comida para os animais, mas isso era tudo mentira, que ela fez a bariátrica. E assim, a gente trabalhou lá muito tempo, às vezes como voluntário mesmo, porque ela falava que não tinha dinheiro. Ela era manipuladora. A gente tinha dó às vezes de ir embora e deixar tudo lá e deixar tudo para trás, porque ela manipulava a nossa cabeça para ficar lá. Então assim, são várias coisas que aconteceu lá esses 5 anos que eu fiquei, até que eu tomei uma decisão de sair de verdade, coloquei ela na justiça por ter ficado 5 anos e ela não ter pagado, não ter feito nada, ter feito várias coisas comigo. A gente não tinha hora de almoço lá, a gente dedicava o nosso tempo totalmente para os animais. Lá não era feito nada dos exames que ela cobrava, exame de fever fever, nada disso era feito porque não tinha essas coisas. Quando os animais iam para feira de adoção, ela cobrava uma taxa de R$300 por animal, falando que já era feito os exames de FIV/FELV, já era feito todos os exames necessários, mas era tudo mentira, não era feito nada desses exames. Ela só vivia bêbada, só vivia drogada, e assim... Ela pode tacar, quando ela ver esse vídeo, ela pode tacar muitas coisas contra mim, mas isso daí eu não tô falando mentira, eu tô falando apenas a verdade do que a gente viveu ali dentro. Eu como funcionário que não recebia, as outras meninas que não recebia também. Então eu e a Mariana tomou essa iniciativa de, primeira Mariana, né, tomou a iniciativa de ir lá e denunciar. E depois eu fui com a Mariana lá falar com a Polícia Civil e denunciar. Então eu tô muito triste por tudo que aconteceu. Não por ela ter sido presa, essa canalha, essa vagabunda, mas por ela ter feito todo esse tempo isso com os animais e a gente ter praticamente ter convivido com isso."
Perícia completa de insumos vencidos e despejo cível
O relatório pericial detalhado das apreensões realizadas na sede documenta materialmente a extensão da negligência sanitária e clínica imposta aos animais, com identificação precisa de lotes e datas:
- Fluidos hospitalares expirados: Foram apreendidas bolsas de Solução de Ringer Lactato da fabricante Baxter Hospitalar Ltda., apresentando o número de registro de lote W221.726-0, com data de fabricação em 29/11/2021 e data de validade expressamente expirada em 31/05/2023, sendo utilizadas continuamente nos procedimentos transfusionais e clínicos junto a frascos de CPD Adenina.

- Ração Purina Pro Plan vencida: Caixas de alimentos úmidos Pro Plan Gatos Esterilizados Frango (15x85g BR), código de barras 789100246351, lote 13098561W1, com data de fabricação em 05/11/21 e prazo de validade vencido desde 01/11/2023.
- Ração Cat Chow vencida: Lotes de sachês Cat Chow Castrados Peixe ao Molho (15x85g), código de barras 891000244043, lote 1118561W1 e data de validade vencida desde 01/01/2024. Ambos os estoques de alimentos apresentavam infestação direta de pragas urbanas (baratas bem alimentadas) caminhando sobre o produto no depósito.

Peças jurídicas de processos trabalhistas revelam também que funcionários sofriam desvio e acúmulo de funções sob o abuso do poder diretivo. O trabalhador contratado era compelido a exercer simultaneamente as funções de Ajudante Geral e Ajudante de Manejo Animal Junior Restrito, acumulando serviços pesados de jardinagem, capina, escavações e reparos de cercas. Em razão da crônica falta de funcionários, o trabalhador era obrigado a cobrir o setor interno apelidado de "Savana", atuando diretamente na remoção de animais mortos e carcaças. O desgaste do pacto laboral era agravado por relatos de assédio sexual nos bastidores. Fotos das dependências internas revelavam ainda sacolas plásticas repletas de latas de cerveja Skol vazias acumuladas sobre as pias, indicando o consumo de bebidas alcoólicas no ambiente de manejo, enquanto vídeos registram a responsável realizando danças em trajes sumários no recinto.

O cenário de degradação interna provocou reações na esfera cível imobiliária antes mesmo da intervenção policial. Documentos oficiais revelam que em 24 de junho de 2026 os administradores do imóvel emitiram uma Notificação Extrajudicial de Despejo com base no artigo 23, inciso III, da Lei do Inquilinato (Lei nº 8.245/91), exigindo a desocupação compulsória e o distrato contratual no prazo de 30 dias em decorrência do estado de insalubridade do imóvel e acúmulo de resíduos.

Infrações aos manuais técnicos do CRMV-SP e da ABVHMT
Seja qual for o sistema de coleta de sangue, é crucial que cada etapa do procedimento seja realizada sob as mais rigorosas condições de higiene.
A rotina de captação de bolsas de sangue operada no local violava de forma direta os critérios éticos, legais e sanitários estabelecidos no Manual de Recomendações de Boas Práticas em Hemoterapia Veterinária da ABVHMT, ABCD EUROPEAN ADVISORY BOARD AND CAT DISEASES e nas resoluções normativas do CRMV-SP. As infrações periciais incluem:
- Vídeo de defesa x norma técnica: Embora os operadores alegassem publicamente realizar um trabalho de triagem de FIV/FELV "com toda a responsabilidade", as coletas massivas e a atuação direta de profissionais do CEVET Anália Franco em felinos debilitados e com lesões clínicas de pele expostas ignoravam os testes moleculares profundos de PCR exigidos para a validação de bolsas seguras, violando o protocolo de segurança transfusional.
- Vedação de doação de animais de abrigo: Os manuais determinam expressamente que todo animal doador deve possuir um tutor responsável legal definitivo. É estritamente proibida a extração de sangue em animais de ONGs ou abrigos devido à impossibilidade de controle epidemiológico confiável e ao elevado risco de exaustão do animal (choque hipovolêmico por coletas repetidas).
- Inadequação estrutural e de insumos: A coleta de hemocomponentes deve ocorrer em ambiente laboratorial estéril. O uso de mesas de atendimento comuns, em salas expostas a gaiolas empilhadas de animais doentes ao fundo e com descarte inadequado de perfurocortantes, configura infração sanitária gravíssima de biossegurança. A lógica operacional de arrecadação em massa do abrigo gerava forte paralelo crítico no terceiro setor com o modelo comercial de grandes complexos de entretenimento privado baseados em exibição animal, como o Animália Park e o Aquário de São Paulo.
O vínculo familiar na defesa técnica
Os desdobramentos na esfera judicial consolidaram as contradições políticas do caso. Após a decretação da prisão preventiva de Patrícia Louana Masiero pela gravidade das acusações de maus-tratos qualificados, a representação legal e a defesa técnica da ré foram assumidas oficialmente pela advogada Doutora Patrícia Penna Saraiva. A defensora é genitora do deputado estadual Rafael Saraiva, parlamentar paulista cuja plataforma política e eleitoral se ancora integralmente na pauta de defesa dos animais e que, conforme registros de redes sociais, mantinha proximidade pública com a instituição. A atuação da mãe de uma das principais lideranças políticas do terceiro setor na condução da defesa jurídica da operadora do abrigo joga luz sobre os bastidores institucionais que cercam os tribunais paulistas.
O álibi legislativo e a atuação da linha de frente virtual
A cronologia aponta que, ciente dos dossiês acumulados por protetores desde março de 2026, o deputado federal Delegado Bruno Lima protocolou na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei nº 2637/2026 em maio de 2026 para proibir a coleta de sangue em abrigos, em uma calculada estratégia de gerenciamento de crise para conferir distanciamento moral ao mandato antes do fechamento da ONG e da formalização da prisão em flagrante por maus-tratos executada em julho.
O avanço das investigações de materialidade e a exposição dos laudos de insalubridade, contudo, passaram a sofrer forte resistência digital. Uma linha de frente virtual, composta por perfis de redes sociais e articuladores digitais com ascensão recente no ativismo, a exemplo de manifestações públicas coordenadas por ativistas, passou a atuar nas plataformas de engajamento. A dinâmica consiste no foco em torno de episódios de violência animal já consumados para angariar visibilidade e, simultaneamente, rechaçar publicações sobre as irregularidades operadas no reduto de Patrícia Masiero, como pessoas que dizem lutar por justiça defender quem mata?

Internautas e protetores que utilizam a internet para compartilhar os prints das conversas e as provas do esquema de hemoderivados relatam sofrer frequentes advertências formais de processos judiciais promovidas por essa ala de suporte virtual. A atuação desses perfis visa mitigar as críticas contra a fundadora da ONG e manter o alinhamento com a estrutura política do gabinete do deputado estadual Rafael Saraiva, responsável pelo envio de verbas governamentais à instituição.

A cobrança por explicações e a ação na Corregedoria
O desdobramento do caso impõe o debate sobre a evidente incoerência política que cerca o mandato do deputado estadual Rafael Saraiva, eleito sob a bandeira exclusiva da proteção animal. Conforme apurado e registrado em bastidores, o parlamentar adotou uma postura ativa de contestação institucional ao acionar formalmente a Corregedoria da Polícia Civil para denunciar os agentes responsáveis pela operação de busca e apreensão na sede da ONG. A apuração policial, contudo, foi considerada integralmente regular pelo Poder Judiciário, que chancelou a materialidade dos maus-tratos e manteve a prisão preventiva da ré.
O fato de o parlamentar desferir ataques administrativos contra a operação policial que resgatou os animais, somado ao fato de sua genitora e advogada assumir a defesa técnica da acusada de causar a morte de dezenas de felinos, abre um espaço de cobrança pública imediata. Eleitores, ativistas e a comunidade protetora pontuam que o cenário exige explicações transparentes sobre a conduta do mandato público e sua aparente convergência com os interesses jurídicos da ré. O espaço permanece inteiramente aberto para que os citados e seus gabinetes se manifestem sobre os fatos apresentados nesta reportagem.
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