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Como funcionava o esquema de "Eutanásia Financeira" na defesa animal do RS.

A ex-secretária de Canoas e veterinários são alvos da Operação Carrasco II por desvios de recursos e sacrifício em massa de animais resgatados.


Como funcionava o esquema de

linha que separa o acolhimento da crueldade está no centro das investigações conduzidas pela Polícia Civil do Rio Grande do Sul. A segunda fase da Operação Carrasco, deflagrada nesta segunda-feira (15), ampliou o alcance de uma apuração que busca esclarecer a atuação de um grupo suspeito de utilizar a causa animal para arrecadar recursos por meio de campanhas digitais enquanto, paralelamente, determinava a eutanásia de cães e gatos sem respaldo clínico adequado. 

Segundo a investigação, a estrutura movimentou R$ 672.670,39 em doações realizadas por milhares de pessoas que acreditavam estar contribuindo para tratamentos veterinários, internações e procedimentos destinados à recuperação dos animais divulgados nas redes sociais.


No centro das apurações está Paula Lopes, ex-secretária Especial de Bem-Estar Animal de Canoas e fundadora de um instituto que levava seu nome. Presa preventivamente na Zona Sul de Porto Alegre, ela é apontada pelos investigadores como a principal responsável pelas decisões que teriam resultado na morte de centenas de animais ao longo dos últimos anos. Conforme a Polícia Civil, a suspeita teria utilizado a visibilidade conquistada na causa animal para impulsionar campanhas de arrecadação enquanto os animais apresentados como destinatários das doações acabavam submetidos à eutanásia em curto espaço de tempo.

Ao chegar à delegacia após a prisão, Paula contestou as acusações. “Saiu o laudo do IGP que comprova que as eutanásias não foram feitas desnecessariamente”, afirmou. A defesa sustenta que os procedimentos seguiram critérios técnicos e que as conclusões da investigação ainda serão debatidas judicialmente.


A fachada virtual e o que apontam as investigações


De acordo com os investigadores, a atuação pública do instituto era baseada na divulgação constante de casos considerados graves ou urgentes. Fotografias e vídeos de animais debilitados, feridos ou portadores de doenças eram publicados nas redes sociais acompanhados de pedidos de ajuda financeira por meio de Pix e campanhas virtuais. As postagens costumavam mobilizar milhares de seguidores e gerar arrecadações rápidas para supostos tratamentos veterinários. No entanto, o conteúdo extraído dos aparelhos celulares apreendidos durante a primeira fase da Operação Carrasco passou a indicar uma dinâmica diferente daquela apresentada ao público.


Mensagens analisadas pela Polícia Civil apontam que, em diversos casos, a decisão pela eutanásia teria sido tomada antes mesmo da conclusão de exames, avaliações complementares ou tentativas de tratamento. Em um dos episódios destacados pela investigação, uma médica veterinária questiona Paula Lopes sobre a necessidade de realizar um teste para confirmação de Cinomose em uma cadela recém-resgatada. Segundo o inquérito, a resposta recebida autorizava a eutanásia imediata, sem aguardar a confirmação diagnóstica. Paralelamente, campanhas de arrecadação para o tratamento do mesmo animal permaneciam ativas nas redes sociais. Em outra situação, envolvendo um caso suspeito de Esporotricose, doença considerada tratável na maioria dos casos quando diagnosticada corretamente, a profissional responsável teria alertado sobre a possibilidade de recuperação. Conforme a apuração policial, a orientação recebida foi para realizar “o que tinha que ser feito”, expressão interpretada pelos investigadores como autorização para o sacrifício do animal.


Para a delegada Luciane Bertoletti, titular da 3ª Delegacia de Polícia de Canoas e responsável pela investigação, os elementos reunidos indicam a existência de uma atuação organizada e permanente. Segundo ela, os procedimentos não estariam relacionados a critérios médicos excepcionais ou situações de sofrimento irreversível, mas a uma lógica voltada para redução de custos e manutenção do fluxo de arrecadações. A Polícia Civil sustenta que a análise dos diálogos, documentos e registros financeiros reforça a hipótese de que a morte dos animais teria sido utilizada como mecanismo para evitar despesas com tratamentos prolongados, internações e medicamentos.


A dimensão financeira do caso


As investigações apontam que a lógica identificada pelos policiais já teria sido observada durante a passagem de Paula Lopes pela Secretaria Especial de Bem-Estar Animal de Canoas. Conforme relatos reunidos durante a apuração, a realização de eutanásias em larga escala teria contribuído para a redução de custos operacionais da pasta e para a apresentação de indicadores que demonstravam elevada produtividade administrativa. A suspeita dos investigadores é de que essa prática tenha sido posteriormente transferida para o ambiente privado, após a exoneração da ex-secretária em julho de 2025.


Com a saída do cargo público, a atuação teria se concentrado integralmente na associação mantida por Paula Lopes. Dados levantados pela Polícia Civil apontam que, entre 2020 e 2026, foram identificadas 549 campanhas virtuais de arrecadação vinculadas ao grupo investigado. Ao todo, 14.545 pessoas realizaram doações durante o período analisado. A polícia trabalha agora para rastrear a destinação dos recursos e identificar a quantidade exata de animais envolvidos. Embora os investigadores tenham apontado inicialmente a ocorrência de 487 eutanásias em apenas sete meses durante a gestão municipal, ainda não há uma estimativa definitiva sobre o número total de mortes relacionadas às atividades da ONG. A análise de microchips, prontuários veterinários e registros de entrada e saída de animais deverá auxiliar na reconstrução desse histórico.


Veterinários investigados e suspeita de colaboração interna


A segunda fase da Operação Carrasco também resultou na prisão preventiva dos médicos veterinários Tainara Hart e Marcos Vinicius Jenisch. Segundo a Polícia Civil, ambos teriam participado diretamente da realização dos procedimentos investigados e são apontados como integrantes da estrutura responsável pelas eutanásias consideradas irregulares. Tainara já havia atuado como responsável técnica da Secretaria Especial de Bem-Estar Animal de Canoas durante a gestão de Paula Lopes. Sua defesa informou que ainda não teve acesso integral aos autos do processo e que somente irá se manifestar após a análise completa da documentação. A defesa de Marcos Vinicius Jenisch ainda não havia se pronunciado até o momento da elaboração desta reportagem.


Outro ponto considerado relevante pelos investigadores envolve a atuação de uma servidora da Polícia Civil, cuja identidade permanece sob sigilo. Conforme a apuração, ela teria utilizado informações obtidas em razão do cargo para beneficiar a organização investigada. A suspeita é de que dados sigilosos sobre o andamento das investigações fossem repassados antecipadamente ao grupo. Além disso, a policial também é investigada por possível adulteração de registros relacionados a ocorrências de maus-tratos, o que teria facilitado a permanência de determinados animais sob a posse definitiva da ONG. O diretor da 2ª Delegacia Regional Metropolitana, delegado Cristiano Reschke, classificou a conduta como extremamente grave e incompatível com as funções exercidas por agentes públicos encarregados da aplicação da lei.


O caso Dudu


Durante o cumprimento dos mandados judiciais na residência de Paula Lopes, os policiais encontraram um cão chamado Dudu, animal que havia sido amplamente divulgado nas redes sociais da investigada. Sem as duas patas dianteiras, Dudu aparecia frequentemente em publicações destinadas à arrecadação de recursos financeiros, sendo apresentado como símbolo da luta pela sobrevivência e da necessidade permanente de apoio dos seguidores do instituto.


Segundo os policiais que participaram da ação, o animal apresentava sinais de negligência e condições incompatíveis com a exposição que recebia nas campanhas virtuais. A situação encontrada no local reforçou uma das principais linhas de investigação da Operação Carrasco,  a possibilidade de que alguns animais fossem utilizados como elemento central de campanhas emocionais de arrecadação enquanto não recebiam, na prática, os cuidados necessários para sua recuperação e bem-estar. O caso passou a ser tratado internamente pelos investigadores como um dos exemplos mais representativos das contradições identificadas ao longo da apuração.


Ao todo, a operação mobilizou dezenas de agentes para o cumprimento de três mandados de prisão preventiva e doze mandados de busca e apreensão em Porto Alegre e Canoas. A ação contou ainda com apoio técnico do Laboratório de Operações Cibernéticas do Ministério da Justiça, responsável por auxiliar na análise de dispositivos eletrônicos, movimentações digitais e fluxos financeiros relacionados às campanhas investigadas. Computadores, celulares, documentos e mídias de armazenamento foram recolhidos e passarão por perícia especializada.


Os alvos centrais da operação


Paula Lopes – Ex-secretária de Bem-Estar Animal de Canoas e presidente da ONG investigada. É apontada pela Polícia Civil como a principal articuladora do esquema.


Tainara Hart – Médica veterinária e ex-responsável técnica da secretaria municipal. É investigada pela participação nos procedimentos de eutanásia questionados pela polícia.


Marcos Vinicius Jenisch – Médico veterinário e proprietário de clínica parceira. É suspeito de executar procedimentos sem justificativa clínica adequada.


Policial Civil (identidade preservada) – Investigada por suposto vazamento de informações sigilosas e possível adulteração de registros administrativos.


As penas previstas


Os investigados poderão responder, conforme o avanço da apuração e eventual oferecimento de denúncia pelo Ministério Público, por crimes previstos na legislação brasileira, entre eles maus-tratos a animais com resultado morte, estelionato mediante fraude eletrônica, associação criminosa e crimes funcionais relacionados ao vazamento de informações protegidas por sigilo. As penas variam de acordo com a participação individual de cada investigado e dependerão da comprovação dos fatos durante a instrução processual.


2018 a 2020 – Fundação do Instituto Paula Lopes e início das campanhas de arrecadação por meio de vaquinhas virtuais.


Janeiro a julho de 2025 – Paula assume a Secretaria Especial de Bem-Estar Animal de Canoas. Servidores passam a relatar aumento significativo no número de eutanásias. A secretária deixa o cargo em julho.


4 de setembro de 2025 – Deflagração da primeira fase da Operação Carrasco. Celulares, documentos e materiais biológicos passam a ser analisados.


Outubro de 2025 a maio de 2026 – Avanço das perícias digitais e financeiras. A Polícia Civil identifica novos elementos relacionados às campanhas de arrecadação.


15 de junho de 2026 – Deflagração da segunda fase da operação, com prisões preventivas, buscas e apreensões e o resgate do cão Dudu.


O impacto para a proteção animal séria


Independentemente do desfecho judicial do caso, a investigação produz reflexos que ultrapassam os limites do processo criminal. Organizações sérias de proteção animal, protetores independentes e entidades que dependem exclusivamente da confiança pública podem enfrentar consequências diretas decorrentes da repercussão do caso. Em um cenário em que grande parte do atendimento veterinário de animais abandonados é sustentada por doações voluntárias, episódios envolvendo suspeitas de fraude tendem a provocar desconfiança generalizada e retração nas contribuições financeiras.


O desafio para o setor passa a ser reforçar mecanismos de transparência, prestação de contas e acompanhamento das atividades desenvolvidas. A divulgação de relatórios financeiros, comprovantes de despesas, prontuários veterinários e informações sobre a destinação dos recursos arrecadados surge como uma das principais formas de fortalecer a credibilidade das instituições que atuam legitimamente na causa animal. Para especialistas da área, a fiscalização permanente e o acesso público às informações representam instrumentos fundamentais para proteger não apenas os doadores, mas também os próprios animais que dependem dessas iniciativas para sobreviver.



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