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Café com Teu Pai no PL: O perigo de transformar a misoginia digital em lei

Quem paga o preço quando a proteção vira alvo? Uma análise das posições públicas do pré-candidato ao Congresso Nacional.


Café com Teu Pai no PL: O perigo de transformar a misoginia digital em lei

O anúncio da pré-candidatura do influenciador Breno Cop, conhecido pelo extinto perfil "Café com Teu Pai", à Câmara dos Deputados pelo Partido Liberal (PL) do Rio de Janeiro, não é um fato político isolado. Trata-se do sintoma mais evidente de um fenômeno alarmante: a institucionalização da "machosfera" e a tentativa de converter o preconceito digital em plataforma de poder no cenário político brasileiro de 2026.

Até recentemente, as ideias de Farias, que comparava mulheres a "fechaduras que não prestam" e propunha técnicas de "adestramento" em relacionamentos, eram relegadas à subcultura da internet. Tais posicionamentos resultaram, inclusive, no banimento definitivo de sua conta principal no Instagram por violação das regras contra o discurso de ódio. Agora, sob a chancela de um dos maiores partidos do país, o influenciador busca transformar sua punição em palanque e seu ressentimento em mandato.

O que realmente faz um Deputado Federal?

Para dimensionar o risco, é fundamental desviar o olhar dos likes e focar na Constituição. Um deputado federal não é eleito para gerar polêmica ou angariar seguidores. Sua função é ocupar a Câmara dos Deputados, em Brasília, e suas atribuições moldam o destino de toda a nação:

• Criar e alterar leis federais: Detêm o poder de modificar o Código Penal, estabelecer novas diretrizes para a educação, saúde e segurança pública.

• Aprovar o Orçamento da União: Decidem a destinação dos impostos, seja para delegacias da mulher e creches, ou para outras prioridades.

• Fiscalizar o Poder Executivo: Asseguram o cumprimento das leis vigentes pelo governo.

Um deputado federal não legisla para uma bolha de internet; ele elabora leis que impactam mais de 200 milhões de brasileiros. Suas decisões têm repercussões geracionais.

O perigo real para mulheres e crianças

Conceder poder legislativo a alguém que construiu sua notoriedade desqualificando a autonomia feminina é, no mínimo, preocupante. A Câmara dos Deputados é o palco de debates e votações de leis cruciais para a proteção da infância e das mulheres, como a Lei Maria da Penha, as penas para o feminicídio, as leis de alienação parental, a proteção à maternidade e os direitos reprodutivos.

Qual o desfecho quando o voto e o poder de emenda de uma lei sobre violência doméstica ou guarda de filhos são confiados a alguém que publicamente defende que mulheres independentes acima dos 30 anos são "problemáticas"?

O risco iminente é o retrocesso civilizatório. O discurso "red pill" não concebe a mulher como sujeito de direitos iguais perante a lei, mas como um elemento a ser domesticado, submetido e confinado a papéis sociais rígidos. Levar essa mentalidade para o Congresso significa colocar sob constante ameaça as políticas públicas de igualdade de gênero, o combate à violência doméstica e a proteção de crianças em lares vulneráveis.

A validação do absurdo: "Tá tudo bem ser misógino"

O aspecto mais deletério da candidatura de Breno Farias reside na chancela de legitimidade que ela confere. Ao abrir as portas e garantir "liberdade total sem mudar uma vírgula do discurso" (conforme o próprio influenciador celebrou), o PL valida a misoginia como uma ideologia política aceitável.

A mensagem que o partido transmite à sociedade é inequívoca e devastadora: atacar mulheres na internet não constitui crime ou desvio de conduta; é, na verdade, uma estratégia de engajamento elegível.

Quando o discurso de ódio adquire o formalismo do ambiente parlamentar, ele transcende a fala de um extremista isolado e passa a deter a força do Estado. Isso normaliza a agressão verbal, legitima o preconceito no ambiente de trabalho, nas escolas e no seio familiar, autorizando homens a replicarem o mesmo comportamento sob o pretexto de estarem apenas exercendo a "liberdade de expressão".

O voto não é um botão de "Seguir"

A política brasileira já arcou com custos elevadíssimos por confundir popularidade digital com capacidade legislativa. Breno Farias, em seu vídeo de lançamento, declara que almeja ingressar na política para "revidar com a mesma força" contra aqueles que o investigam e o criticam.

O Congresso Nacional não pode ser instrumentalizado como escudo protetor contra o Ministério Público ou como mero instrumento de revanche de um influenciador banido. Legislar exige responsabilidade, respeito à dignidade humana e, acima de tudo, a compreensão de que metade da população brasileira é composta por mulheres, as mesmas que a "red pill" tenta desqualificar, mas que a democracia tem o dever de proteger.

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