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Julia Araújo

A Economia do Estímulo: Como o Ódio contra Mulheres Virou o Mercado Mais Rentável do Algoritmo

No centro do debate está uma engrenagem bilionária que transforma difamação, terrorismo psicológico e sangue em cliques monetizáveis.


A Economia do Estímulo: Como o Ódio contra Mulheres Virou o Mercado Mais Rentável do Algoritmo

Durante anos, a violência de gênero no ambiente digital foi empurrada para a periferia do debate público como um "problema de comportamento", um excesso de "comentários infelizes" ou uma questão de foro íntimo. Tratava-se o linchamento virtual como um subproduto inevitável de redes sociais hiperconectadas.

Hoje, o diagnóstico mudou radicalmente. Deixou de ser uma discussão moral para se tornar uma análise de mercado. Existe uma economia estruturada do engajamento que recompensa financeiramente a humilhação, a exposição pública e a desinformação direcionada contra as mulheres.


A engrenagem opera sob uma matemática simples e perversa: quanto maior a revolta gerada por um conteúdo, maior é o tempo de tela do usuário. Quanto maior o tempo de tela, mais anúncios são vendidos. O resultado? A violência virou um negócio bilionário para as Big Techs e uma estratégia lucrativa de audiência para criadores de conteúdo de extrema-franja.

A ilusão de que a "retórica digital é inofensiva" desmorona diante de dados oficiais.

No primeiro trimestre de 2026, o Brasil registrou o período mais letal de sua série histórica, com 399 feminicídios em apenas três meses, uma média fúnebre de quatro mulheres assassinadas por dia [1] [2].

Essa violência física não nasce no vácuo; ela é pavimentada digitalmente. O caso da adolescente Isabela Miranda Borck, de 17 anos, é o reflexo mais trágico dessa conexão. Após 45 dias desaparecida em novembro de 2025, Isabela foi encontrada morta em janeiro de 2026, assassinada pelo próprio pai, Anderson Borck, que já possuía condenação criminal por estupro contra a própria filha [3].

A investigação do Ministério Público revelou a matriz ideológica que sustentava a mente do assassino: o algoritmo de suas redes sociais era alimentado compulsivamente por conteúdos da chamada "machosfera".

Borck consumia e compartilhava materiais que atacavam denúncias de violência doméstica, deslegitimavam a Lei Maria da Penha e utilizavam a "engenharia da suspeição" para colocar mães e mulheres sob suspeita permanente [4].

"Mesmo sendo um estuprador condenado, o agressor via a si mesmo como uma vítima de uma sociedade matriarcal, validado por uma comunidade digital que normaliza a desresponsabilização masculina", aponta a análise do caso.

É o que a antropóloga Rita Segato conceitua como o "mandato de masculinidade": o agressor destrói a vida da mulher para restaurar o poder que o ecossistema digital o convenceu de que havia perdido.

Consumo de Conteúdo Misógino ➔  Validação Algorítmica do Ressentimento ➔ Desumanização da Vítima ➔ Feminicídio no Mundo Físico

A Barbárie Viral: O Fundo do Poço Algorítmico

Se a violência doméstica é o destino final dessa engrenagem, a exploração da tragédia é o seu combustível diário. O limite moral das plataformas foi testado, e rompido, nesta semana, após a morte trágica de Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, de 21 anos, em Limeira (SP), vítima de uma falha grave em um salto de rope jumping em junho de 2026.

A dor da família foi imediatamente transformada em espetáculo e engajamento. Perfis nas redes sociais passaram a inundar as publicações sobre o acidente com comentários de teor pornográfico, incitação ao estupro, necrofilia e vilipêndio de cadáver. Frases monstruosas como "eu indo no IML juntar os pedaços para fazer a festa" foram amplificadas pelas métricas de relevância das plataformas.

O caso motivou uma denúncia formal à Polícia Federal feita pela deputada Erika Hilton (Psol-SP) em 15 de junho de 2026 [5] [6]. A parlamentar expôs a raiz do problema que o Congresso tenta votar hoje:
"Isso é misoginia, isso é incitação e isso é CRIME! (...) Não podemos permitir que a falta de moderação e de responsabilidade das big techs, que lucram bilhões de dólares, continue a normalizar tantos horrores."

Para o código de programação das plataformas, a indignação gerada por um comentário violento tem o mesmo valor monetário de uma interação saudável. A arquitetura financeira das redes sociais hoje é sócia majoritária da profanação de corpos femininos.

Violência Política: A Retaliação da Máquina Contra a Lei

Quando a misoginia digital encontra o campo da disputa de poder, ela se transforma em uma ferramenta coordenada de silenciamento democrático.O objetivo deixa de ser apenas o lucro direto e passa a ser a expulsão de mulheres dos espaços de decisão jurídica e legislativa.

A deputada estadual Luciana Genro (Psol-RS) tornou-se alvo desse modus operandi ao denunciar ameaças graves de morte e violência sexual enviadas por e-mail em maio de 2026.

A tática, frequentemente coordenada em fóruns anônimos e redes de subculturas radicais (redpills), segue um padrão idêntico ao utilizado contra as parlamentares Livia Duarte e Carol Dartora: desumanizar o alvo político para intimidar o coletivo [7].

A violência atinge o seu ápice de cinismo na retaliação direta contra quem tenta mudar a legislação. 

A senadora Ana Paula Lobato (PSB-MA), autora do projeto de lei que tipifica a misoginia e a equipara ao crime de racismo (PL 896/2023), passou a ser caçada digitalmente após a aprovação do texto na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) em outubro de 2025.

Lobato recebeu ameaças explícitas de morte em sua conta na rede social X. O agressor ironizou a própria essência da proteção jurídica [8]:

"Quero ver mandar prender os que te querem morta depois deles terem te matado. Você vai morrer, escapa dessa não."


O paradoxo é violento: milícias digitais utilizam o argumento da "defesa da democracia e da liberdade de expressão" para justificar o direito de ameaçar de morte a legisladora que tenta criminalizar o ódio.

O Veredicto das 17h: O Limite da Tolerância

O texto relatado hoje na Câmara dos Deputados propõe uma linha divisória clara. Ao equiparar a misoginia ao racismo, tornando a conduta inafiançável e imprescritível, e ao deslocar para a Polícia Federal a competência de investigar redes mundiais de computadores, o Estado brasileiro tenta retomar as rédeas da segurança pública digital.

O PL 896/2023 foi aprovado no Senado Federal em 24 de março de 2026 e remetido à Câmara dos Deputados em 30 de março de 2026 para revisão [9].

Como definiu a senadora Soraya Thronicke, relatora da matéria no Senado: "A conduta misógina não fere a honra de uma só mulher, mas fere a integridade de um grupo e ameaça a existência plena de todas."

A votação de hoje não é um debate abstrato sobre o que se pode ou não falar na internet. É um teste de soberania institucional. O Brasil precisa decidir se continuará permitindo que empresas de tecnologia enxuguem sangue sob a justificativa cínica da liberdade de expressão, ou se finalmente desligará os disjuntores financeiros que alimentam a indústria do ódio contra as mulheres.

O corpo de Isabela Borck, a memória de Maria Eduarda e a integridade de parlamentares ameaçadas não permitem que as instituições continuem fingindo que a retórica digital é inofensiva.


Referências[1] G1. "Brasil registra um feminicídio a cada 5 horas e 25 minutos no 1º trimestre de 2026". Publicado em 05/05/2026. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/05/05/brasil-registra-um-feminicidio-a-cada-5-horas-e-25-minutos-no-1o-trimestre.ghtml

[2] Fórum Brasileiro de Segurança Pública. "Retrato dos Feminicídios no Brasil". Nota Técnica, Março/2026. Disponível em: https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2026/03/nota-tecnica-dia-mulher-2026.pdf

[3] Instagram/Notícias. "Corpo da adolescente Isabela Miranda Borck é encontrado". Publicado em 16/01/2026. Disponível em: https://www.instagram.com/p/DTmNOTole1o/?hl=en

[4] Ruivo News/YouTube. "O Terrível Caso de Isabela Borck". Publicado em Fevereiro/2026. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=rlc7NKwy7QQ

[5] G1 SP. "Deputada pede à PF investigação de perfis do X que fizeram publicações sobre necrofilia após morte de jovem em salto de rope jump". Publicado em 15/06/2026. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/06/15/deputada-pede-a-pf-investigacao-de-perfis-do-x-que-fizeram-publicacoes-sobre-necrofilia-apos-morte-de-jovem-em-salto-de-rope-jump.ghtml

[6] Metrópoles TV. "Erika Hilton denuncia comentários sobre morte de jovem em rope jump". Publicado em 15/06/2026. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=XdAGKLhigBc

[7] Portal PSOL. "Luciana Genro (PSOL-RS) sofre ameaças de morte e violência sexual e denuncia perseguição misógina". Publicado em 27/05/2026. Disponível em: https://psol50.org.br/luciana-genro-psol-rs-sofre-ameacas-de-morte-e-violencia-sexual-e-denuncia-perseguicao-misogina/

[8] G1 MA. "Senadora do MA sofre ameaças após PL contra misoginia: 'Vai morrer'". Publicado em 28/10/2025. Disponível em: https://g1.globo.com/ma/maranhao/noticia/2025/10/28/senadora-do-ma-denuncia-ameacas-de-morte-apos-apresentar-projeto-que-criminaliza-misoginia.ghtml

[9] Senado Federal. "Projeto de Lei nº 896, de 2023 - Atividade Legislativa". Publicado em Março/2026. Disponível em: https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/156025




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