Julia Araújo
A Máquina do Ressentimento: Quando a Machosfera Chega ao Debate Público
Da desinformação nas redes ao feminicídio: como a retórica misógina legitima a violência contra a mulher.
Em sua última participação na Globo News o ator Juliano Cazarré afirmou, em rede nacional, que mulheres matam mais homens do que homens matam mulheres, o Brasil não testemunhou apenas uma fala imprecisa ou um erro estatístico inocente.

O país assistiu, em horário nobre, à migração de uma retórica fabricada na machosfera digital para o centro do debate público. A declaração reproduzia uma narrativa desmentida por inúmeras checagens jornalísticas, que utilizava dados descontextualizados sobre violência urbana para criar uma falsa equivalência com o feminicídio. Essa fala é o sintoma visível de um ecossistema muito mais profundo e perigoso: uma engrenagem digital que transforma o ressentimento masculino em identidade coletiva, converte leis de proteção em escudos para agressores e culmina no derramamento de sangue.
A machosfera não é um grupo isolado, mas uma rede descentralizada de influenciadores, fóruns red pill e canais de consumo massivo. Nesse ambiente, opera o que a sociologia contemporânea chama de terrorismo estocástico. Ao repetir exaustivamente que os homens são vítimas de um sistema capturado pelo feminismo, que as leis são injustas e que as denúncias das mulheres são fabricadas, esses canais inflamam uma base de indivíduos com ressentimentos prévios. A economia da atenção das redes sociais regida por algoritmos que lucram com o ódio garante que conteúdos de enfrentamento à violência sofram restrição de alcance, enquanto discursos de vitimização masculina estrutural viralizam. Cria-se, assim, uma câmara de eco onde o agressor encontra validação moral para sua violência antes mesmo de cometê-la.
A legitimação institucional desse ressentimento encontra seu ápice na Lei de Alienação Parental, também conhecida como LAP. Trata-se de uma anomalia jurídica cujo núcleo conceitual foi fundado na Síndrome da Alienação Parental, uma teoria de Richard Gardner amplamente rejeitada pela Organização Mundial da Saúde e pela Associação Americana de Psiquiatria. A LAP instaurou no ordenamento jurídico brasileiro a presunção da suspeita contra a mãe. Na prática, consolidou-se um mecanismo de inversão letal onde o eixo do processo deixa de ser a investigação rigorosa do abuso denunciado para focar na credibilidade da denunciante. A denúncia deixa de ser um instrumento de proteção e passa a configurar um risco processual. Mulheres que tentam proteger seus filhos de abusadores são rotuladas de manipuladoras, enquanto agressores utilizam a lei como um escudo jurídico.
O que acontece quando o ressentimento digital se encontra com a impunidade jurídica é revelado pelo caso da adolescente Isabela Miranda Borck, de 17 anos. Após 45 dias desaparecida, Isabela foi encontrada morta em uma área de mata em Caraá. A adolescente foi sequestrada em Itajaí e assassinada pelo próprio pai, Anderson Borch. A tragédia possui contornos de uma falência múltipla do sistema, visto que Anderson Borch já possuía uma condenação criminal por estupro contra a própria filha e a investigação do Ministério Público apontou a vingança como motivação. O alicerce ideológico que sustentava a mente do assassino era um espelho fiel da machosfera, pois Borch consumia e compartilhava compulsivamente conteúdos que atacavam denúncias de violência doméstica e deslegitimavam a Lei Maria da Penha. Seu perfil era alimentado por integrantes do Instituto de Direito dos Homens e por advogadas que se autodenominam defensoras dos emocionados. Mesmo sendo um estuprador condenado, Borch via a si mesmo como um homem castrado, vítima de uma sociedade matriarcal.
A violência de gênero operou como um mandato de masculinidade, conforme definido por Rita Segato, onde ele assassinou a filha para restaurar o poder que acreditava ter perdido, validado por uma comunidade digital que normaliza a desresponsabilização masculina.
Diante de um ecossistema que pavimenta o caminho para o feminicídio, a prevenção exige respostas proporcionais como o Projeto de Lei 896/2023, de autoria da senadora Ana Paula Lobato. Aprovado na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, o projeto altera a Lei número 7.716/1989 para equiparar a misoginia aos crimes de racismo e intolerância religiosa.
O texto define misoginia como a conduta que exteriorize ódio ou aversão às mulheres e prevê que atitudes que causem humilhação, medo ou exposição indevida em razão do gênero sejam punidas com rigor, aplicando-se a pena em dobro quando ocorrerem no contexto de violência doméstica. A reação da machosfera ao projeto foi instaurar o pânico moral, espalhando a mentira de que homens seriam presos por discordar, quando o projeto mira o discurso de ódio estruturado que arma o braço do agressor.
A urgência de derrubar a LAP e aprovar o projeto de lei da misoginia baseia-se em matemática fúnebre retirada dos dados oficiais de 2026. No primeiro trimestre deste ano, o Brasil registrou o período mais letal de sua série histórica, com 399 feminicídios em apenas três meses, uma média de quatro mulheres assassinadas por dia e um aumento de 7,5% em relação ao mesmo período do ano anterior. A violência contra a mulher começa na construção contínua de narrativas que inferiorizam o feminino, na legitimação algorítmica do ressentimento e na manutenção de legislações que transformam a proteção em perseguição.
O Brasil enfrenta um ponto de não retorno onde o Estado precisa reconhecer a misoginia estrutural como um risco à vida e aprovar mecanismos severos de responsabilização ou continuará enxugando sangue sob a justificativa cínica da liberdade de expressão.
O corpo de Isabela Borck e as outras centenas de mulheres mortas neste trimestre não permitem mais que as instituições finjam que a retórica digital é inofensiva.



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